

Laika (2105/2107)
Lada
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Laika (VAZ 2105/2107) – O clássico soviético eterno
O Lada Laika, nome pelo qual a família VAZ-2105 e VAZ-2107 ficou conhecida em diversos mercados de exportação, representa a última grande evolução da arquitetura clássica da AvtoVAZ derivada do Fiat 124. Introduzidos no final da década de 1970 e produzidos até o início do século XXI, esses modelos simbolizam um esforço consciente de atualização estética, funcional e simbólica de um projeto originalmente concebido nos anos 1960, mantendo, porém, a mesma base técnica, filosofia construtiva e compromisso com robustez extrema. O Laika não foi criado para competir tecnicamente com sedãs ocidentais contemporâneos, mas para prolongar a vida de uma plataforma já amortizada, confiável e amplamente conhecida em mercados onde simplicidade e resistência ainda eram valores centrais.
Dentro da lógica industrial soviética — e posteriormente pós-soviética — o 2105 e o 2107 ocuparam posições distintas, porém complementares. O 2105 era a versão “básica modernizada”, enquanto o 2107 representava o topo da gama clássica, com acabamento mais elaborado e status superior. Em mercados como Reino Unido, Brasil, Itália e Canadá, ambos foram agrupados sob o nome Laika, funcionando como a imagem internacional do sedã Lada por excelência.
O contexto histórico do surgimento do Laika está diretamente ligado à necessidade da AvtoVAZ de manter relevância mínima no mercado externo sem realizar investimentos estruturais profundos. A plataforma original do 2101 já havia se provado resistente, barata de produzir e fácil de manter, e a solução encontrada foi atualizá-la visualmente e adaptá-la a normas de segurança e emissões cada vez mais exigentes, especialmente nos mercados de exportação. Assim, o Laika nasce mais como um exercício de sobrevivência industrial do que como um novo projeto.
Tecnicamente, o Lada Laika mantém a arquitetura clássica de motor dianteiro longitudinal e tração traseira, com carroceria autoportante reforçada. A estrutura básica permanece praticamente inalterada em relação aos modelos anteriores, com chapas espessas, soldas reforçadas e tolerâncias largas, pensadas para resistir a uso severo, estradas precárias e manutenção irregular. Essa filosofia estrutural explica tanto sua durabilidade lendária quanto seu peso elevado e seu comportamento dinâmico datado.
A suspensão dianteira é independente, com braços sobrepostos e molas helicoidais, enquanto a traseira utiliza eixo rígido também com molas helicoidais. Trata-se de um conjunto simples, robusto e previsível, ideal para carga, estradas de terra e climas extremos, mas limitado em conforto refinado e estabilidade em condução mais exigente. Os freios seguem a lógica pragmática: discos na dianteira e tambores na traseira, suficientes para o desempenho modesto do conjunto e fáceis de manter.
Do ponto de vista do design, o Laika marca uma ruptura visual importante em relação aos primeiros Lada. O VAZ-2105 introduz linhas mais retas e angulares, faróis retangulares, para-choques plásticos e uma linguagem estética alinhada ao final dos anos 1970, abandonando o visual arredondado herdado do Fiat 124. Já o VAZ-2107 eleva essa proposta com grade frontal cromada mais elaborada, detalhes decorativos adicionais e uma presença visual que, dentro do contexto soviético, era claramente associada a status e prestígio.
Essa diferenciação estética era fundamental em um mercado onde opções eram limitadas e símbolos visuais tinham peso social significativo. O 2107, em especial, tornou-se um carro associado a funcionários públicos, gestores e exportações mais exigentes, enquanto o 2105 atendia ao usuário comum, frotas e mercados sensíveis a preço.
O interior do Laika reflete exatamente essa hierarquia. No 2105, o painel é simples, funcional e desprovido de adornos, com instrumentação básica e materiais rígidos. No 2107, surgem acabamento imitando madeira, instrumentação mais completa, bancos ligeiramente mais confortáveis e melhor isolamento acústico. Ainda assim, mesmo na versão mais sofisticada, o padrão geral permanece espartano segundo critérios ocidentais, com foco absoluto em durabilidade e facilidade de reparo.
O espaço interno acomoda confortavelmente quatro adultos, com um quinto ocupante possível em uso eventual. O porta-malas é amplo e regular, reforçando a vocação familiar e utilitária do modelo, especialmente em regiões onde o automóvel precisava cumprir múltiplas funções.
Em termos dimensionais, o Lada Laika mede cerca de 4,14 metros de comprimento, com largura próxima de 1,62 metro e altura em torno de 1,44 metro. O entre-eixos de aproximadamente 2,42 metros garante estabilidade direcional e bom aproveitamento interno. O peso em ordem de marcha varia entre 1.030 e 1.080 kg, dependendo da versão e do nível de acabamento.
A gama de motores do Laika segue a tradição da AvtoVAZ: simples, robusta e conservadora. As versões mais comuns utilizam motores a gasolina de quatro cilindros com 1,3, 1,5 e 1,6 litro, entregando potências que variam aproximadamente entre 65 e 75 cv. Esses propulsores não impressionam por desempenho, mas são conhecidos por tolerar combustíveis de baixa qualidade, operar por longos períodos sob carga e permitir reparos básicos com ferramentas simples.
O desempenho é modesto. A aceleração de 0 a 100 km/h situa-se entre 16 e 19 segundos, com velocidade máxima na faixa de 145 a 155 km/h. Mais relevante do que os números absolutos é a capacidade de manter ritmo constante em estradas longas e suportar uso contínuo sem degradação mecânica severa. O consumo gira em torno de 9 a 11 km/l, variando conforme manutenção, carga e condições de rodagem.
A transmissão manual de quatro marchas, posteriormente cinco em algumas versões, é robusta e de engates longos. A tração traseira confere comportamento previsível quando carregado e boa capacidade em estradas de terra, embora exija cautela em pisos escorregadios quando vazio. Em uso real, o Laika transmite sensação constante de solidez, mesmo que acompanhado de vibrações, ruído mecânico e conforto limitado.
No mercado internacional, o Lada Laika teve recepção ambígua. Em países como o Reino Unido, tornou-se conhecido como um carro barato, resistente e honesto, mas também como símbolo de atraso tecnológico frente a concorrentes europeus e japoneses. No Brasil, teve presença discreta, mas marcou época como alternativa extremamente simples e robusta em um mercado cada vez mais sofisticado. Em seu mercado doméstico, foi um dos pilares da mobilidade individual por décadas.
A confiabilidade do Laika é amplamente reconhecida. Sua mecânica simples, ausência quase total de eletrônica e estrutura reforçada permitiram uma longevidade excepcional. Muitos exemplares permaneceram em uso ativo por décadas, atravessando mudanças políticas, econômicas e industriais sem perder sua função básica.
Historicamente, o Laika representa tanto o auge quanto o limite da família clássica Lada. Ele mostra até onde era possível evoluir um projeto dos anos 1960 por meio de atualizações incrementais, sem jamais romper com sua essência. Seu valor não está na inovação, mas na consistência e na adequação absoluta ao contexto em que foi produzido.
Conclusão
O Lada Laika (VAZ-2105 / 2107) não foi um carro moderno no sentido técnico, nem pretendeu ser. Ele foi, acima de tudo, um produto coerente com sua realidade histórica, industrial e social. Ao combinar uma base mecânica comprovada com uma atualização estética suficiente para atravessar mais duas décadas de produção, tornou-se um dos sedãs mais longevos da história automotiva. Seu legado não é o de um ícone de engenharia avançada, mas o de um automóvel que cumpriu sua função com obstinação e resistência raras. O Laika encerra, com dignidade, a longa era dos Lada clássicos — uma era em que durabilidade e simplicidade eram mais importantes do que inovação ou sofisticação.
Sobre o design:












































