

111 (2111)
Lada
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VAZ-2111 – A station wagon da nova geração
O Lada 111, conhecido internamente como VAZ-2111, ocupa um lugar muito específico na história da indústria automotiva do Leste Europeu. Lançado no fim da década de 1990 como derivação da família Lada Samara 2 (série 110), ele representou a tentativa da AvtoVAZ de modernizar sua linha de automóveis compactos sem romper com os princípios que sempre definiram a marca: simplicidade mecânica, robustez estrutural, facilidade de manutenção e adaptação a condições severas de uso. Em um momento em que o mercado global já migrava para projetos mais sofisticados, o Lada 111 seguiu deliberadamente um caminho conservador, assumindo o papel de veículo familiar funcional, especialmente em regiões onde confiabilidade básica e baixo custo eram mais importantes do que tecnologia ou refinamento.
Dentro da gama Lada, o 111 era a versão perua da família 110, posicionando-se como alternativa mais versátil ao sedã 110 (VAZ-2110) e ao hatch 112 (VAZ-2112). Seu papel era atender famílias, pequenos comerciantes e frotas que necessitavam de maior capacidade de carga sem recorrer a veículos comerciais dedicados.
Contexto histórico e gênese do projeto
O desenvolvimento do Lada 111 está diretamente ligado ao esforço da AvtoVAZ para substituir gradualmente a antiga geração Samara original (VAZ-2108/2109), lançada ainda nos anos 1980. A série 110 foi concebida para ser mais moderna em termos de aerodinâmica, segurança passiva e ergonomia, mantendo, porém, uma base técnica conhecida e de fácil produção.
A AvtoVAZ operava sob fortes restrições financeiras e tecnológicas após o colapso da União Soviética, o que influenciou profundamente o projeto. O Lada 111 nasceu, portanto, como um produto de transição: moderno o suficiente para sobreviver ao novo ambiente de mercado, mas conservador o bastante para ser produzido em larga escala com a infraestrutura existente.
Arquitetura técnica e soluções estruturais
Tecnicamente, o Lada 111 utiliza arquitetura de motor dianteiro transversal e tração dianteira, solução já consagrada na família Samara. A carroceria é autoportante, com foco em robustez estrutural mais do que em redução de peso ou sofisticação construtiva.
A suspensão dianteira é independente do tipo McPherson, enquanto a traseira utiliza eixo de torção com molas helicoidais, uma configuração simples, resistente e tolerante a pisos de baixa qualidade. Essa escolha era essencial para mercados com estradas mal conservadas, neve, lama ou uso intenso em áreas rurais.
Os freios variavam conforme a versão, geralmente com discos na dianteira e tambores na traseira, solução adequada ao desempenho e ao peso do veículo, além de facilitar manutenção em regiões com pouca infraestrutura técnica.
Design exterior: função sem concessões
O design do Lada 111 é um reflexo direto de sua filosofia. As linhas são retas, simples e sem qualquer pretensão estética. A dianteira apresenta faróis retangulares, grade estreita e para-choques funcionais, enquanto a lateral mantém perfil clássico de perua compacta, com teto longo e linha de cintura horizontal.
A traseira é totalmente orientada à funcionalidade, com grande tampa do porta-malas, abertura ampla e lanternas verticais simples. Não há elementos decorativos supérfluos; cada componente existe para cumprir uma função clara e ser facilmente substituído em caso de dano.
Essa neutralidade visual, embora pouco atraente para mercados ocidentais mais exigentes em design, contribuía para a longevidade estética do modelo e para sua aceitação em contextos onde aparência tinha peso secundário.
Interior, ergonomia e uso cotidiano
O interior do Lada 111 segue o mesmo princípio de pragmatismo. O painel é simples, com instrumentação básica e comandos grandes, pensados para operação fácil mesmo com luvas, algo relevante em climas frios. Os materiais são rígidos e pouco refinados, mas resistentes ao uso intenso e ao envelhecimento precoce.
O espaço interno é adequado para quatro adultos, com um quinto ocupante possível em trajetos curtos. A grande vantagem está no compartimento de carga: o porta-malas oferece volume significativamente maior do que o sedã e o hatch da linha, podendo ser ampliado com o rebatimento do banco traseiro.
Essa versatilidade fez do Lada 111 um veículo amplamente utilizado como carro familiar, táxi, veículo de serviço público e até transporte de pequenas cargas em áreas rurais.
Dimensões, peso e capacidades
O Lada 111 mede aproximadamente 4,27 metros de comprimento, com largura em torno de 1,68 metro e altura próxima de 1,50 metro. O entre-eixos de cerca de 2,49 metros favorece o aproveitamento interno e a estabilidade em estrada.
O peso em ordem de marcha varia entre 1.050 e 1.100 kg, dependendo da versão e do nível de equipamentos. O porta-malas oferece capacidade superior a 400 litros, número expressivo para um compacto da época, reforçando sua vocação utilitária.
Motores, desempenho e eficiência
A gama de motores do Lada 111 é simples e funcional. As versões mais comuns utilizavam motores a gasolina de quatro cilindros, com 1,5 e 1,6 litro de deslocamento. As potências variavam aproximadamente entre 70 e 90 cv, dependendo da configuração e do sistema de injeção.
O desempenho era modesto, mas adequado à proposta. A aceleração de 0 a 100 km/h ficava na faixa de 13 a 15 segundos, com velocidade máxima próxima de 160 a 170 km/h. O foco não estava em performance, mas em confiabilidade e facilidade de reparo.
O consumo era razoável, geralmente entre 10 e 12 km/l em uso misto, podendo variar conforme as condições de estrada e manutenção, fatores críticos nos mercados onde o modelo era mais utilizado.
Transmissão, tração e comportamento dinâmico
A transmissão era manual de cinco marchas, com engates simples e robustos. A tração dianteira proporcionava comportamento previsível, especialmente em pisos escorregadios, embora o controle dinâmico fosse limitado pela ausência de sistemas eletrônicos avançados.
Em uso real, o Lada 111 se destacava pela suspensão tolerante a buracos, pela capacidade de enfrentar estradas ruins sem danos estruturais graves e pela facilidade de condução em ambientes urbanos e rurais. O conforto era básico, mas funcional, com rodar relativamente macio para os padrões da marca.
Tecnologia, eletrônica e segurança
Em termos de tecnologia, o Lada 111 era claramente conservador. As versões iniciais ofereciam apenas o essencial: direção mecânica ou hidráulica, sistema de ventilação simples e poucos recursos de conforto. Airbags e sistemas eletrônicos de assistência eram raros ou inexistentes nas primeiras fases do modelo.
Com o passar dos anos, algumas versões passaram a incorporar injeção eletrônica mais moderna, freios melhorados e equipamentos mínimos para atender a regulamentações de emissões e segurança em mercados específicos, mas o modelo nunca teve pretensão tecnológica.
Mercado, produção e recepção
O Lada 111 foi produzido principalmente na Rússia e vendido em mercados do Leste Europeu, Europa Oriental e alguns países emergentes. Seu desempenho comercial foi consistente dentro desse contexto, atendendo a um público fiel que valorizava custo baixo, manutenção simples e robustez acima de qualquer outro atributo.
Em mercados ocidentais, o modelo teve aceitação limitada, sendo visto como defasado frente a concorrentes mais modernos. Ainda assim, encontrou nichos específicos entre compradores que priorizavam funcionalidade extrema.
Confiabilidade, manutenção e longevidade
A confiabilidade do Lada 111 é um de seus pontos mais fortes. A mecânica simples, tolerante a combustível de baixa qualidade e fácil de reparar contribuiu para sua longevidade. Muitas unidades permaneceram em uso ativo por décadas, especialmente em regiões rurais e climas severos.
Os custos de manutenção são baixos, e a disponibilidade de peças, ampla nos mercados de origem, reforçou sua reputação como veículo de uso prolongado.
Legado e leitura histórica
O Lada 111 pode ser visto como um dos últimos representantes de uma filosofia automotiva quase extinta: a do carro projetado prioritariamente para durar, ser consertado e continuar rodando em qualquer condição, mesmo à custa de conforto, tecnologia e refinamento.
Ele não marcou época por inovação nem por design, mas por coerência absoluta com sua proposta. Em um mundo cada vez mais orientado por eletrônica e complexidade, o Lada 111 permaneceu fiel a uma engenharia essencial.
Conclusão
O Lada 111 (VAZ-2111) não foi um carro aspiracional, nem tecnicamente avançado, mas foi profundamente honesto. Ele cumpriu exatamente aquilo para o qual foi concebido: transportar pessoas e cargas com simplicidade, resistência e baixo custo em ambientes onde essas qualidades eram vitais. Como produto industrial, representa um capítulo final de uma era da AvtoVAZ e da indústria do Leste Europeu — uma era em que o automóvel era, antes de tudo, uma ferramenta. E nesse papel, o Lada 111 foi exemplar.
Sobre o design:












































