

Kalina (1117)
Lada
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Kalina – O compacto moderno da era Renault-Nissan
O Lada Kalina, identificado internamente como VAZ-1117 na carroceria hatch, representa uma tentativa consciente da AvtoVAZ de romper com a imagem estritamente soviética que acompanhou seus produtos por décadas. Lançado no início dos anos 2000, o Kalina surgiu em um momento de transição profunda para a indústria automotiva russa, já inserida em uma economia de mercado, pressionada por concorrentes estrangeiros e obrigada a atualizar seus padrões de segurança, ergonomia e eficiência sem dispor dos mesmos recursos técnicos e financeiros das grandes fabricantes globais. O Kalina não nasceu para ser revolucionário, mas para ser viável: um carro compacto moderno o suficiente para sobreviver no novo cenário, mantendo custos baixos e robustez estrutural.
Dentro da gama da AvtoVAZ, o Kalina ocupou o papel de sucessor conceitual dos antigos Samara e da família 110, posicionando-se como um compacto urbano de nova geração. Sua função estratégica era clara: oferecer um produto com aparência mais contemporânea, arquitetura atualizada e maior apelo ao consumidor comum, especialmente no mercado doméstico russo e em países vizinhos.
O projeto começou ainda nos anos 1990, mas enfrentou sucessivos atrasos devido à instabilidade econômica pós-soviética. Isso explica por que o Kalina chegou ao mercado já carregando soluções técnicas que, embora modernas para os padrões da AvtoVAZ, eram conservadoras em comparação aos concorrentes europeus e asiáticos da mesma época. Ainda assim, o modelo marcou um avanço real na história da marca.
Do ponto de vista de engenharia, o Kalina adota arquitetura de motor dianteiro transversal e tração dianteira, com carroceria autoportante desenvolvida especificamente para essa família. Diferentemente dos Lada clássicos derivados do Fiat 124, o Kalina não reutiliza plataformas dos anos 1960, o que por si só já representa um divisor de águas técnico. A suspensão dianteira é independente do tipo McPherson, enquanto a traseira utiliza eixo de torção com molas helicoidais, configuração simples, robusta e adequada às condições severas das estradas russas.
A calibração da suspensão privilegia resistência e tolerância a impactos, mais do que refinamento dinâmico. Em pisos irregulares, o Kalina se mostra sólido e pouco propenso a ruídos estruturais, embora apresente rolagem de carroceria perceptível em condução mais agressiva. A tração dianteira garante comportamento previsível, especialmente em condições de baixa aderência, como neve e lama.
Visualmente, o Kalina 1117 representa um esforço claro de suavização estética em relação aos modelos anteriores da AvtoVAZ. Suas linhas são arredondadas, com superfícies menos angulosas e proporções típicas de um hatch compacto moderno. A dianteira apresenta faróis ovais e capô curto, enquanto a traseira mantém desenho simples, com lanternas verticais e tampa ampla. Não há ousadia estética, mas há uma tentativa evidente de abandonar o visual puramente utilitário.
O interior segue a mesma lógica. O painel é simples, porém mais ergonômico do que o dos Lada anteriores, com melhor posicionamento dos comandos e instrumentação mais clara. Os materiais continuam majoritariamente rígidos, mas apresentam melhor acabamento e encaixe do que os da família 110. O espaço interno é adequado para quatro adultos, com um quinto ocupante possível em uso ocasional, enquanto o porta-malas oferece capacidade coerente com o segmento, suficiente para uso urbano e viagens curtas.
Em termos dimensionais, o Kalina hatch mede aproximadamente 3,85 metros de comprimento, com largura próxima de 1,67 metro e altura em torno de 1,50 metro. O entre-eixos de cerca de 2,47 metros favorece o aproveitamento interno, enquanto o peso em ordem de marcha gira em torno de 1.050 a 1.100 kg, dependendo da versão e do nível de equipamentos.
A gama de motores reflete a filosofia pragmática da AvtoVAZ. O Kalina foi equipado principalmente com motores a gasolina de quatro cilindros, com 1,4 e 1,6 litro de deslocamento. As potências variavam aproximadamente entre 80 e 98 cv, dependendo da versão e da evolução do sistema de injeção. Esses motores priorizam simplicidade, torque em baixas rotações e facilidade de manutenção, mais do que desempenho absoluto.
O desempenho é modesto, mas suficiente para o uso cotidiano. A aceleração de 0 a 100 km/h ocorre em cerca de 11 a 13 segundos, com velocidade máxima próxima de 165 a 175 km/h. O consumo médio situa-se geralmente entre 11 e 13 km/l em uso misto, números aceitáveis para o porte e a proposta do veículo, especialmente considerando as condições reais de rodagem nos mercados de origem.
A transmissão é manual de cinco marchas, com engates longos e mecânica simples. Em algumas versões posteriores, surgiram opções automatizadas, mas o foco sempre permaneceu na confiabilidade e no baixo custo de manutenção. A experiência de condução é direta e descomplicada, sem isolamento acústico refinado, mas com sensação constante de robustez.
Em termos de tecnologia e segurança, o Kalina representa um avanço em relação aos Lada mais antigos, mas ainda se mantém em patamar básico. Airbags frontais, freios ABS e direção assistida passaram a ser oferecidos em versões mais recentes, principalmente para atender exigências regulatórias e melhorar competitividade. No entanto, sistemas eletrônicos avançados de assistência nunca fizeram parte central da proposta do modelo.
No mercado, o Lada Kalina teve desempenho sólido dentro de seu contexto. Na Rússia, tornou-se um dos compactos mais vendidos por vários anos, especialmente entre compradores que buscavam um carro novo, simples e barato, mas mais atual do que os modelos clássicos. Fora do Leste Europeu, sua aceitação foi limitada, reflexo de padrões mais elevados de acabamento, segurança e eficiência exigidos em mercados ocidentais.
A confiabilidade do Kalina é geralmente considerada boa quando mantido corretamente. Sua mecânica simples, tolerante a combustível de qualidade variável e fácil de reparar contribuiu para custos de propriedade baixos e longa vida útil, características centrais da identidade Lada. Problemas de acabamento e corrosão em unidades mais antigas são conhecidos, mas raramente comprometem a funcionalidade básica do veículo.
Historicamente, o Kalina pode ser visto como um carro de transição. Ele não rompeu completamente com o passado da AvtoVAZ, mas representou um passo real em direção à modernização. Serviu como base técnica e conceitual para modelos posteriores, como o Granta, que refinariam ainda mais essa fórmula de simplicidade adaptada aos tempos modernos.
O legado do Lada Kalina (VAZ-1117) não está na inovação nem no desempenho, mas na sua função estratégica. Ele mostrou que a AvtoVAZ era capaz de desenvolver um compacto contemporâneo dentro de enormes limitações estruturais e econômicas, mantendo sua identidade de robustez e baixo custo. Como produto industrial, o Kalina simboliza a tentativa honesta de atualização de uma marca historicamente isolada — e, nesse papel, cumpre sua missão com coerência.
Conclusão
O Lada Kalina é um automóvel definido por contexto. Não impressiona por tecnologia, design ou refinamento, mas entrega exatamente o que se propõe: mobilidade simples, resistente e acessível em condições reais de uso. Como hatch compacto, foi um passo necessário na evolução da AvtoVAZ e um elo fundamental entre os Lada clássicos e os produtos mais recentes da marca. Seu valor histórico está menos no que ele foi como carro e mais no que representou como sinal de mudança — lenta, imperfeita, mas inevitável — dentro da indústria automotiva russa.
Sobre o design:













































